A medicalização do sofrimento e a banalização do sujeito da situação

Angela Maria Silva Hoepfner - Joinville - SC

As práticas intervencionistas em Saúde Mental, baseadas no modelo tradicional médico através de um diagnóstico descritivo com prescrição de medicamentos, são dispositivos de poder e controle que banalizam o sofrimento humano, não compreendendo este como o sujeito da situação, ou seja, um sujeito imerso num campo. Não se trata de rejeitar todo e qualquer uso dos psicofármacos, pois são inegáveis alguns de seus efeitos positivos. O que queremos evidenciar são os efeitos de um discurso que banaliza a existência, naturaliza os sofrimentos e culpabiliza os indivíduos por seus problemas e pelo cuidado de si. Com o uso de medicamentos o sofrimento perde seu significado íntimo e pessoal, com a transformação da dor em um problema técnico, promovendo a tolerância às situações difíceis e o controle das emoções. Assim passa a ser instaurada uma “normalidade medicalizada”, na qual a expressão do sofrimento (de qualquer origem e forma) não se torna objeto de reflexão que possibilite a busca de construção de outras formas de ser e estar na vida. Neste cenário não há espaço para sofrimento, morte, doença ou outras vicissitudes como simples fatos da vida. A proposta deste trabalho é apresentar um relato de experiência, como psicóloga clínica de orientação gestáltica na Atenção Básica do Sistema Único de Saúde (SUS). Trata-se de um projeto denominado Saúde Integral, criado pela Secretaria Municipal da Saúde do município de Joinville que tem como objetivo atender pessoas que fazem uso de psicofármacos, em encontros periódicos, em grupo, com a participação da equipe de saúde (médico, enfermeira e psicóloga). O que tem sido possível constatar é que, à medida que as pessoas vão participando do grupo e criando vínculo, o trabalho clínico passa a ser aceito, o que torna possível a gradativa redução do uso do medicamento e muitas vezes o seu término.
Angela Maria Silva Hoepfner - Psicóloga clínica CRP 12/00940, mestre em Psicologia - UFSC, especialista em Psicologia Social - CFP, especialista Psicologia Clínica em Gestalt Terapia pelo - Instituto Müller-Granzotto/CFP; formadora e apoiadora da Política Nacional de Humanização do SUS - ESP/SC, MS, UFSC; professora e supervisora do curso de especialização em Gestalt Terapia no Instituto Müller-Granzotto em Florianópolis; psicóloga do Sistema Único de Saúde - SUS na Secreteria Municipal de Saúde de Joinville/SC, atuando em Saúde Mental na Atenção Básica e Estratégia da Saúde da Família - ESF e consultório particular - adolescentes, adultos, casais, famílias e grupos..